Adeus ao sonho, adeus FATE-BH

(Achado quase arqueológico – Palavra na formatura de dezembro de 2006 quando deixei a direção da FATE-BH Faculdade Evangélica de Teologia de Belo Horizonte).

Quando desejamos explicar sobre certo assunto, definimos, conceituamos, objetivamos.

Quando desejamos comunicar vida, narramos.

Quando queremos comunicar sentimentos, fazemos poesia.

Minha relação com a FATE somente pode ser explicada através da narrativa e da poesia, pois é caso de vida.

Sabe…

Sonhei um sonho, um sonho grande, um sonho imenso.

Sonhei que havia um lugar lindo, tipo aquele “onde o leopardo passeia com a corsa onde ninguém força a natureza para viver, onde a andorinha voa com o gavião, onde ainda o coração é a fonte do saber…”.

Neste lugar, havia salas de aulas com carteiras de madeira rústica, dispostas em forma de círculo, para se conversar sobre Agostinho, Anselmo, Abelardo; para se discutir sobre a Teologia Dialética do Karl Barth, sobre a Teologia Socialista dos “radicais” da América Latina, para se contar histórias do Antigo Testamento e da vida;

Havia também outra sala onde a Aparecida servia aos professores aquela broa de milho com um chazinho fumegante, onde conversavam descontraídos assuntos misturados como a Trindade em Moltmann, a matrícula dos filhos no Colégio, as bancas de monografia.

Vi uma Biblioteca, tão diferente, parecia até a nossa casa do Pablo Neruda (nossa biblioteca da Beberibe), mas era maior. Cheia de quadros de teólogos ao lado de quadros de índios e de latinos. Livros a perder de vista…sem muita tecnologia, mas um aconchego inigualável. Alunos entrando e saindo, outros assentados conversando em alguns bancos de madeira numa pequena pracinha em frente à nossa “Casa dos Livros”.

Claro, não podia faltar a capela, de madeira envernizada. Parecia mais um pequeno templo da nossa querida Assembléia, desses que se encontra em qualquer cidadezinha do interior do país.  Em seu interior vi outro grupo de alunos ensaiando uma dança, vestidos com roupa colorida. Parecia frevo, mas a música era de adoração, frevo de adoração, como disse alguém “isso só poderia vir da FATE mesmo!”.

E o refeitório, que lindeza, fogões industriais ao lado de um maravilhoso fogão de lenha, acredita! Quanta mineirice! Vi gente rindo, papeando como dizia minha vó. Adivinha qual o assunto? Será a Teologia Narrativa do Pr. Sidney? Ou a Teologia da Missão da Regina? O Targum da Susie? Não, acho que era sobre a teologia da Verdade do Gilmar? Quem sabe o Israel de camponeses do Ebenezer? Na mesa do Aziel certamente eram os versos da Adélia Parado, Cora Coralina, recitados em baianês.

Num outro canto do pátio, vi três estudantes assentados de mãos dadas, orando e, mais ao fundo, como sempre, o campo de pelada. Pra ser sincera não era bem música e nem de oração o som que vinha de lá, mas… faz parte.

Sonhei um sonho, humanamente imenso.

Este lugar dos sonhos exalava Teologia da melhor qualidade, como disse em uma poesia certa vez, há muito tempo atrás “com cara de negro, de índio, de branco, de gente”.

Teologia sem muita definição, mas com muito conto e canto.

Teologia que brasileiro gosta de ouvir, que fala de Deus no mundo dos homens, que fala dos homens no mundo de Deus.

Sonhei um sonho, e ao acordar descobri que esse sonho por ser tão humano, era mais que utopia, era uma fantasia.

Meu falecido sonho foi para o céu dos sonhos.

Muitas coisas foram feitas, um projeto pedagógico Nota A, um corpo docente titulado, um PDI, e a história de uma faculdade e sobre quantas vezes teve que mudar para ajustar a roupa curta ao corpo comprido.

Mas, é preciso que a FATE seja o que ela dá conta de ser. Para isso, é preciso deixar ir o sonho e a sonhadora, porque muitas vezes o sonho fica apontado seu dedo para uma realidade que pode nunca chegar, assim, deixamos de viver aquilo que já existe. Moltmann deveria ter escutado mais o sábio do Eclesiastes, não acham?

Agora preciso pedir perdão:

Me perdoem professores pela pressão para estudar. Falando nisso Gilmar você ainda não pregou seu diploma de mestre na minha porta. Me perdoem alunos por ter envolvidos vocês nisso e feito vocês sonharem junto. Me perdoem funcionários, por faze-los aguardar um lugar lindo, que não vai chegar. Me perdoa meu Deus, por não ter feito mais.

Entrego a Deus, neste momento:

Tudo que Ele me permitiu fazer na FATE. Entrego o meu sonho e aquilo que dele foi possível realizar e entrego também as estruturas, os sistemas e os esquemas que impediram que muito mais fosse feito. Obrigado gente, meus irmãos, porque me deixaram trabalhar com vocês.

Aos alunos que formam hoje, somente um conselho:

Sonhem menos, vivam mais,

Conceituem menos e contem mais histórias,

Façam menos ensaios e mais poesia,

Não tenho medo da fé, pois ela é que gera Teologia,

Não busquem lugares pomposos,

Mas os montes, o barco, a mesa de refeição,

Sejam pastores não empresários de igreja,

Sejam apóstolos e levem o nome de Cristo

Sejam profetas e denunciem o mal onde estiver

Sejam sábios e ensinem o povo a servir a Deus

Sejam santos, assim como Ele, o nosso Pai, é santo!

Que Deus abençoe a todos!

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