Oração e Ceia

Como não orar, se tão amigos do Senhor? Orar pelo pão e o vinho é agradecer pela comida e alegria, pela gratuidade da Mesa, pelo aproximar-se faminto e triste e encontrar alimento e festa. É a oração que celebra a gratuidade do amor de Jesus.

A Ceia do Senhor, conforme a refeição celebrada por Jesus e os crentes primitivos, era impregnada da atmosfera de oração e amor. Antes de firmar-se, no segundo século, o termo Eucaristia, o Novo Testamento emprega a palavra grega eulogia, literalmente “louvor”, mas que traduz o termo hebraico berakah, “abençoar”. Jesus tomou o pão e o abençoou. A benção do Senhor é que enriquece, ensina a Sabedoria do Velho Testamento. Era aceita como expressão do livre amor, do bem-estar e da felicidade que Deus dispunha ao seu povo. Verticalmente, para Deus, a benção subia em orações de louvor e gratidão. Horizontalmente, a benção tornava-se oração feita pelos irmãos, “que o Senhor te abençoe desde Sião”. A Ceia do Senhor reflete este contexto de oração.

A realidade histórica não precisa ser favorável para que a Ceia assuma esse caráter. No dia de sua prisão, Jesus orou e encerrou a refeição cantando orações do povo de Deus no Velho Testamento, apesar de saber dos sofrimentos que o aguardavam. É uma lição impressionante de como a Ceia do Senhor prepara e fortalece para as grandes lutas históricas da vida da comunidade de ministros.

A oração também é intercessão sacerdotal. A graça faz que nossa oração se desloque da gratidão para a intercessão. Estamos com o Jesus sacerdote à mesa. A oração flui da oferta de louvor para a oferta intercessória. Se Jesus intercede pela comunidade de ministros, esta o faz reclamando vida para a sociedade humana.

Auxiliada pela mediação sobre o pão e o vinho, descobre a fome e a sede do mundo. Ela está alimentada, mas o mundo está com fome. Ela está abençoada, mas o mundo está maldito. Ela segue o Crucificado que deu a vida pelo mundo, e ela deve fazer o mesmo. E o faz recolhendo toda a necessidade do mundo na oração que intercede por ele perante Deus.

A resposta à intercessão é a mesma comunidade orante. A oração a transforma em pão e vinho para a sociedade humana. A Ceia do Senhor não é mera recordação dos sofrimentos, da morte e da ressurreição de Jesus pelo mundo, mas identificação com os mesmos. Tendo orado, a comunidade retorna ao mundo como seu sacerdote, em direção às pessoas que a circunda. O culto não terminou, a celebração prossegue, a Ceia será vivida em missão. Os abençoados saem para abençoar, os salvos saem para salvar, os sacerdotes não o são apenas para Deus, agora são sacerdotes para o mundo.

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