Solidariedade ou Medo? Amor ou Obrigação? O que nos leva a agir em favor do próximo e da próxima?

Escola Bíblica de 03/08

Para compreender o texto de II Reis 7.3-16a precisamos de elementos que nos ajudem a reconstruir seu contexto histórico, econômico, cultural e religioso. A narrativa tem como cenário o Reino do Norte, que neste momento tinha como seu rei Jorão, filho de Acab, que “tornou-se rei de Israel em Samaria e reinou doze anos (852-841)”, cf. II Reis 3.1.

Pelo texto de II Reis 3.2 sabemos que Jorão “fez mal aos olhos de Iahweh; não, porém, como seu pai e sua mãe, pois derrubou a estela de Baal que seu pai tinha feito. Mas continuou apegado aos pecados que Jeroboão, filho de Nabat, fez Israel cometer e deles não se apartou”.

É um tempo de convulsão política, disputas por rotas comerciais, de inserção de religiões estrangeiras e injustiças sociais. Tanto é que dois episódios marcam as políticas do reinado de Jorão: a revolta de Moabe contra Israel por ter sido forçado a pagar tributos abusivos e pesados e, uma série de incidentes entre a Síria e Israel (II Re 3-7).

A narrativa nos coloca dentro do cerco de Samaria, sitiada pelos sírios. A consequência desse evento foi a fome, severa, que nos é contada por meio de uma dramática cena de canibalismo (6.24-31).

Nosso recorte textual, relata como se deu o fim do cerco. Dentre tantos olhares possíveis, optamos ler o texto a partir da visão dos quatro leprosos. “À porta da cidade estavam quatro leprosos…” (7:3). Estes quatro leprosos ao qual o texto se refere eram pessoas invisíveis, segundo a lei (Lv 13.45) deveriam morar fora do acampamento. Eram pessoas anônimas, marginalizadas, doentes incuráveis, gente de quem nada se espera.

É possível interpretar a ação descrita pelos leprosos de duas maneiras pelo menos. Num modo poderíamos ler o texto assim “Não agimos corretamente, pois, se não compartilharmos esta informação seremos punidos” Noutro modo leríamos “Não agimos corretamente esperando o amanhecer para compartilhar esta informação, falemos agora”.

Na primeira leitura sustenta-se que o movimento dos leprosos de ir até a cidade sitiada foi um movimento causado pelo medo da punição e não pela solidariedade; na segunda leitura sustenta-se a solidariedade e apenas a discussão sobre o momento adequado de informar a cidade sitiada e faminta.

Num modo questiona-se a intenção dos leprosos quanto à generosidade, no outro questiona-se o retardo na comunicação. Compartilharam movidos pelo Medo do Castigo? Compartilharam movidos pelo Amor ao próximo? Compartilharam imediatamente por temerem o Castigo? Ou compartilharam imediatamente porque a notícia era tão magnífica que não cabia retardar a comunicação? Agiram movidos pela Ética imposta pelo Medo de Sofrer? Ou agiram movidos pela Ética da Humanidade? Aparentemente, Eugene Peterson é do grupo daqueles que entendem que os leprosos agiram movidos pela “Ética do Medo”; em sua “tradução” ele acrescenta ao pensamento dos leprosos o temor de serem “descobertos”. Ele escreve “… Se aguardarmos até amanhã, seremos descobertos e castigados…”. Fato inquestionável é que, independente da motivação, houve um ato de solidariedade. Aqueles que viviam excluídos para além do muro compartilharam a vida com aqueles que cercados estavam. Cabe aqui a pergunta: e não seria isto o Amor? A ação em prol do outro? “Mostra-me tua fé sem obras e eu com as minhas obras mostrar-te-ei a minha fé”

Um comentário em “Solidariedade ou Medo? Amor ou Obrigação? O que nos leva a agir em favor do próximo e da próxima?”

  1. Eustáquio says:

    Não é amor, no máximo inteligência, do contrário pagar impostos seria um ato de amor.
    Não dá para dizer “independente da motivação” porque senão Mateus 6 não faria o menor sentido.
    Imagine um filho que agrada o pai porque quer ter maior parte na herança? A motivação é importantíssima.
    Solidariedade haverá se eles se preocuparam com os outros, se eles se preocuparam com eles, com o castigo deles, não houve solidariedade, apenas pagaram o informaram para não serem pegos “e os outros que se lixem, eu fiz minha parte”.

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