O Mordomo Infiel e a Corrupção no Brasil: qualquer coincidência não é mero acaso

“Por isso, eu lhes digo: usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas.” (Lucas 16:9) – SÓ QUE NÃO!

Uma leitura de Lucas 16.1-13, realizada pelo grupo de Leitura Comunitária da Bíblia, com mediação do Alexandre Paura.

A ironia é um estilo literário que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância entre aquilo que dizemos e o que realmente pensamos. Ela visa obter uma reação do leitor, ouvinte ou interlocutor. A Bíblia contém histórias com pitadas irônicas, como por exemplo em Gênesis 11:1-9, que mostra a presunção da humanidade em edificar uma cidade para ela, contendo uma torre cujo o pico chegasse até os céus, com a finalidade de que se tornassem celebridades. A ironia está na ação de Deus que, mediante a “enorme” construção da torre, necessitou inclinar-se para ver a obra que os tornaria célebres.

Em Lucas 16:1-13, temos uma outra história, onde o cenário parece conter pecadores, publicanos, teólogos, a elite religiosa da época e os discípulos de Jesus para ouvi-lo (Lc 15:1-2). Jesus dirige-se aos discípulos e conta a eles uma parábola sobre um homem rico que ficou sabendo a respeito da defraudação de seu funcionário que ocupava o cargo de administrador dos seus bens. Aborrecido, deu à ele o “aviso prévio”, ou seja, uma ordem de demissão. Resultou em um novo desempregado por justa causa. A crise desse mais recente desempregado, o fez conjecturar suas reais possibilidades para a própria sobrevivência. Entre suas opções estava: fazer buracos ou mendigar. A primeira opção leva a crer que este homem tinha limitações físicas ou não estava acostumado com trabalhos braçais mais pesados, pois faltava a ele forças para o exercício da profissão. A segunda opção, mendigar, causaria a ele vergonha. Restou então a própria “esperteza”, mecanismo de “sobrevivência” para muita gente, e, provavelmente, a mesma arma que o fez ser demitido. Desta vez, foi ao encontro dos devedores de seu antigo patrão, e, sem nenhuma autorização, estimulou-os a defraudar seu credor sem que os mesmos soubessem que ele não fazia mais parte do quadro de empregados. O texto dá a entender que ele fez isto para conquistar a amizade daqueles homens a fim de ter alguém que pudesse ajuda-lo agora na condição de desempregado. No final da parábola até o padrão defraudado admirou a esperteza daquele homem.

Poderíamos perguntar onde está a ironia até aqui? Realmente, até este momento só temos o que estamos acostumados em nosso país, o que denominamos de “corrupção”, que, entre outras práticas, consiste em defraudar o Estado, a população, funcionários, sócios etc., para obter favores e vantagens ilícitas. A ironia está presente em algumas partes do texto. Inicia com o elogio do antigo patrão ao ex-administrador, pela astúcia que usou para conseguir que os devedores ficassem “devendo favores” eternos a ele. Ora, elogiar quem estava roubando-o parece no mínimo estranho e pouco inteligente, a não ser que nesse meio de tanta corrupção sejam essas as regras e a “ética (falta dela)” admirável, da esperteza.

Jesus também ironiza ao desafiar seus ouvintes a construir amizades baseadas nesses valores de troca de favores, barganha e “outras cositas mais”, como vemos no cenário político brasileiro. As tantas amizades, alianças e negociatas na calada da noite; um “toma lá dá cá” vergonhoso e empobrecedor da população brasileira, que defraudada de seus recursos públicos padece pelo desemprego, fome e dor. Como prêmio, estes “amigos” estariam prontos e ansiosos por “recebê-lo nas moradas eternas”. Temos visto nos noticiários como são fiéis “os amigos” de muitos políticos, com: gravações de conversas, delações, ameaças etc.

A verdade é que quem está consciente dos valores do Reino de Deus, conhece como ele funciona internamente e não constrói relacionamentos baseados em favores, bens materiais ou pela prática de “uma mão lava a outra”. Nesta novidade de vida, a única coisa que temos a dever aos outros, segundo o apóstolo Paulo, é o amor. As relações devem ser verdadeiras e não baseadas na esperteza.

Outro ensinamento: que quem quiser ser um seguidor de Jesus, de verdade, não tentará fazê-lo por meio de atalhos, pois a salvação não se compra, somente assim e nessa condição estará com ele nas moradas celestiais. As relações humanas são mais simples em relação àquela que desenvolvemos com Deus. Se não conseguirmos ser fiéis em nossas próprias relações, como poderemos ser fiéis na relação com Deus, até porque a vida com Ele passa pelas relações humanas.

Uma última lição que aprendemos é que Jesus era bem irônico quando queria ser!